O trânsito mata, mutila e custa bilhões ao país. Por que ainda não ensinamos isso na escola?

16/03/2026


Estamos nos aproximando de uma das maiores mobilizações de conscientização viária do país: o Maio Amarelo, campanha promovida pelo Observatório Nacional de Segurança Viária. O movimento, que mobiliza instituições públicas, empresas e sociedade civil, busca chamar a atenção para o alto número de mortos e feridos no trânsito brasileiro. A iniciativa é fundamental para sensibilizar a sociedade, mas também nos convida a refletir sobre uma pergunta essencial: estamos tratando a educação para o trânsito com a profundidade que o problema exige?

O Brasil continua pagando um preço alto pela forma como trata o trânsito. Mesmo quando alguns indicadores apontam queda no número de acidentes, o impacto humano e econômico permanece alarmante. Dados recentes mostram que milhares de pessoas ainda morrem todos os anos nas ruas e rodovias brasileiras, enquanto muitas outras sobrevivem com sequelas permanentes. Além da tragédia humana, existe um impacto direto sobre o sistema público de saúde: internações, cirurgias e longos processos de reabilitação que custam bilhões ao SUS. O trânsito, portanto, não é apenas um problema de mobilidade. É um problema social, econômico, de saúde pública e também educacional.

Em 2024, foram registradas 227.656 internações hospitalares no SUS devido a sinistros terrestres, o que significa que, a cada 2 minutos, uma vítima de trânsito necessita de atendimento de emergência. Ao longo dos últimos 10 anos, o SUS contabilizou 1,8 milhão de internações por sinistros de trânsito, com despesas hospitalares diretas que somam R$ 3,8 bilhões, segundo Flávio Adura, diretor Científico da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet).

Apesar disso, a educação para o trânsito ainda não ocupa um espaço estruturado no currículo da Educação Básica. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) menciona o tema dentro da formação cidadã, mas na prática ele aparece de forma pontual, muitas vezes restrito a campanhas ou atividades isoladas. Essa abordagem episódica ignora um fato fundamental: comportamentos no trânsito não se formam no momento em que alguém tira a carteira de habilitação. Eles são construídos ao longo da vida, desde a infância, na forma como as pessoas aprendem a perceber riscos, respeitar regras e conviver no espaço público.

Diversos países que alcançaram melhores resultados em segurança viária entenderam isso há décadas. Na Holanda, por exemplo, a educação para o trânsito faz parte do currículo do ensino fundamental e inclui atividades práticas que ensinam crianças a circular com segurança como pedestres e ciclistas. Em vários países europeus, programas de educação para mobilidade segura acompanham os estudantes desde os primeiros anos escolares, desenvolvendo gradualmente competências de percepção de risco, tomada de decisão e responsabilidade coletiva. No Japão, a educação para o trânsito começa muito cedo e envolve experiências práticas que ajudam crianças a compreender o comportamento do tráfego e a importância da atenção no ambiente urbano.

Essas experiências mostram algo essencial: segurança no trânsito não depende apenas de fiscalização ou punição. Depende de cultura. E cultura se forma por meio da educação.

O trânsito é um sistema social complexo. Nele convivem pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas disputando o mesmo espaço. Tomar decisões nesse ambiente exige percepção de risco, autocontrole, empatia e responsabilidade coletiva, habilidades que precisam ser desenvolvidas ao longo da formação das pessoas.

Quando a educação para o trânsito é tratada apenas como campanha eventual, perde-se a oportunidade de formar gerações mais conscientes e preparadas para lidar com essa complexidade. Inserir o tema de forma estruturada no currículo da Educação Básica permitiria desenvolver progressivamente conhecimentos, atitudes e comportamentos seguros, contribuindo para reduzir mortes, sequelas permanentes e os enormes custos sociais provocados pelos acidentes.

Se queremos transformar a realidade do trânsito brasileiro, precisamos compreender algo simples: segurança viária não começa na habilitação. Começa na escola, e quanto mais cedo essa aprendizagem acontecer, maiores serão as chances de construirmos uma cultura de responsabilidade, respeito e preservação da vida nas ruas e nas estradas.


O trânsito que temos é reflexo da educação que construímos

23/03/2026


O trânsito brasileiro não é apenas um problema de mobilidade, fiscalização ou infraestrutura. Ele é, sobretudo, um reflexo direto da formação que oferecemos ou deixamos de oferecer ao longo da Educação Básica. A forma como as pessoas se comportam nas vias públicas não surge no momento da habilitação. Ela é construída muito antes, nos anos em que valores, percepções e decisões começam a se consolidar.

Hoje, o que vemos nas ruas, imprudência, agressividade, baixa percepção de risco, desrespeito às regras, não pode ser tratado apenas como falha individual. Trata-se de um reflexo sistêmico de uma formação que não incorporou, de maneira estruturada, a educação para o trânsito como parte essencial do desenvolvimento humano e social.

Durante décadas, tratamos o trânsito como um tema técnico, restrito a normas e punições. Mas o comportamento no trânsito é, antes de tudo, uma expressão de competências que deveriam ser desenvolvidas na escola: tomada de decisão, autocontrole, empatia, responsabilidade coletiva e leitura de contexto. Quando essas competências não são trabalhadas de forma intencional, o resultado aparece exatamente onde não deveria: no risco cotidiano.

A própria Educação Básica já possui, em seu currículo, os elementos necessários para enfrentar essa realidade. A Física, a partir do 9º ano, trabalha conceitos como velocidade, aceleração, energia e impacto, conteúdos que poderiam ser diretamente aplicados à compreensão de acidentes e seus efeitos reais. A Matemática permite analisar distâncias, tempo de reação e probabilidades de risco. A Geografia discute mobilidade urbana, organização das cidades e uso do espaço. A História oferece a compreensão da evolução dos meios de transporte, das legislações e da cultura de circulação. A Filosofia e a Sociologia ampliam a discussão para ética, responsabilidade e comportamento coletivo.

O conhecimento existe. O que falta é intencionalidade. Hoje, a educação para o trânsito aparece de forma pontual, muitas vezes restrita a campanhas ou ações isoladas. Não há progressão, não há integração curricular consistente, não há avaliação de impacto. Isso cria uma lacuna formativa significativa: enquanto crianças e jovens já participam ativamente do trânsito como pedestres, ciclistas e passageiros, a escola não os prepara de forma sistemática para lidar com esse ambiente complexo.

Essa ausência cobra um preço alto. O país investe em fiscalização, endurece leis, amplia campanhas, mas continua lidando com um problema que nasce muito antes dessas medidas. Sem formação, toda intervenção posterior se torna corretiva e não preventiva.

Por isso, é necessário reposicionar o debate. A educação para o trânsito não pode ser tratada como um tema acessório ou eventual. Ela precisa ser reconhecida como uma dimensão estruturante da formação cidadã, com presença clara, contínua e integrada no currículo da Educação Básica.

Isso exige uma decisão de política pública. Cabe ao Ministério da Educação liderar esse movimento, transformando uma previsão já existente em prática efetiva. Isso significa orientar sistemas de ensino, apoiar escolas, formar professores e estabelecer diretrizes que garantam a integração do tema de forma consistente ao longo da trajetória escolar.

Se queremos reduzir acidentes, preservar vidas e construir uma cultura de respeito no trânsito, precisamos começar pela base. O trânsito que temos hoje é consequência direta da educação que construímos. O trânsito que queremos amanhã depende das escolhas que fazemos agora, dentro da escola.