Manifesto pela Educação para o Trânsito na Educação Básica

01/03/2026


Todos os dias, o Brasil perde vidas no trânsito. Não são números. São histórias interrompidas. São famílias que nunca mais serão as mesmas.

E, ainda assim, seguimos tratando o trânsito como um problema técnico.

Falamos de fiscalização, falamos de infraestrutura, falamos de legislação, mas o trânsito não é apenas técnico. O trânsito é humano.

Ele revela, de forma direta, aquilo que somos enquanto sociedade.

Revela nossa pressa, nossa intolerância e, principalmente, nossa dificuldade de reconhecer o outro. O outro, no trânsito, muitas vezes deixa de ser pessoa e passa a ser obstáculo.

E quando isso acontece, o risco deixa de ser exceção e passa a ser consequência. Por isso, é preciso dizer com clareza: O trânsito não começa no volante. Ele começa na forma como aprendemos a conviver.

E é exatamente aqui que está o ponto central. O Brasil não forma cidadãos para o trânsito. Forma, quando muito, condutores para a prova da habilitação.

A educação para o trânsito, quando existe, aparece de forma pontual, uma campanha, uma ação isolada, um evento no calendário, mas comportamento não se constrói em eventos.

Comportamento se aprende, se constrói na repetição, na reflexão, na vivência, na integração com o conhecimento.

Defender a Educação para o Trânsito na Educação Básica não é uma pauta acessória. É uma decisão estratégica de país. Não se trata apenas de ensinar regras. Trata-se de formar consciência.

O trânsito é um dos poucos espaços onde diferentes áreas do conhecimento se encontram de forma concreta. Velocidade não é apenas um conceito, é tempo de reação, é distância de frenagem, é energia que pode preservar ou tirar uma vida.

Convivência não é discurso. É prática diária de respeito e gentileza. Quando a escola ignora o trânsito, perde uma das maiores oportunidades de promover aprendizagem significativa e quando o país ignora a escola como espaço de formação para o trânsito, perpetua um ciclo que nenhuma multa resolve.

Nós não precisamos apenas de melhores motoristas. Precisamos de melhores cidadãos que não se formam aos 18 anos. Se formam na infância.

Se queremos reduzir mortes no trânsito, precisamos parar de tratar o efeito e começar a atuar na causa. A causa é cultural e cultura se forma pela educação.

Por isso, este manifesto é um posicionamento. Defendo a inclusão estruturada, contínua, curricular e interdisciplinar da Educação para o Trânsito na Educação Básica.

Defendo que o tema deixe de ser periférico e passe a ocupar o lugar que lhe cabe: o de formação essencial para a vida em sociedade, porque no trânsito, ninguém anda sozinho e fora dele, também não.

Se queremos um trânsito mais seguro, precisamos, antes, de uma sociedade mais consciente e essa sociedade começa na escola.


Jhony Yamada

Educação no Trânsito: por que ainda não tratamos isso de forma séria nas escolas?

04/03/2026


Estamos nos aproximando de uma das maiores mobilizações de conscientização viária do país: o Maio Amarelo, campanha promovida pelo Observatório Nacional de Segurança Viária. O movimento, que mobiliza instituições públicas, empresas e sociedade civil, busca chamar a atenção para o alto número de mortos e feridos no trânsito brasileiro. A iniciativa é fundamental para sensibilizar a sociedade, mas também nos convida a refletir sobre uma pergunta essencial: estamos tratando a educação para o trânsito com a profundidade que o problema exige?

O Brasil continua pagando um preço alto pela forma como trata o trânsito. Mesmo quando alguns indicadores apontam queda no número de acidentes, o impacto humano e econômico permanece alarmante. Dados recentes mostram que milhares de pessoas ainda morrem todos os anos nas ruas e rodovias brasileiras, enquanto muitas outras sobrevivem com sequelas permanentes. Além da tragédia humana, existe um impacto direto sobre o sistema público de saúde: internações, cirurgias e longos processos de reabilitação que custam bilhões ao SUS. O trânsito, portanto, não é apenas um problema de mobilidade. É um problema social, econômico, de saúde pública e também educacional.

Em 2024, foram registradas 227.656 internações hospitalares no SUS devido a sinistros terrestres, o que significa que, a cada 2 minutos, uma vítima de trânsito necessita de atendimento de emergência. Ao longo dos últimos 10 anos, o SUS contabilizou 1,8 milhão de internações por sinistros de trânsito, com despesas hospitalares diretas que somam R$ 3,8 bilhões, segundo Flávio Adura, diretor Científico da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet).

Apesar disso, a educação para o trânsito ainda não ocupa um espaço estruturado no currículo da Educação Básica. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) menciona o tema dentro da formação cidadã, mas na prática ele aparece de forma pontual, muitas vezes restrito a campanhas ou atividades isoladas. Essa abordagem episódica ignora um fato fundamental: comportamentos no trânsito não se formam no momento em que alguém tira a carteira de habilitação. Eles são construídos ao longo da vida, desde a infância, na forma como as pessoas aprendem a perceber riscos, respeitar regras e conviver no espaço público.

Diversos países que alcançaram melhores resultados em segurança viária entenderam isso há décadas. Na Holanda, por exemplo, a educação para o trânsito faz parte do currículo do ensino fundamental e inclui atividades práticas que ensinam crianças a circular com segurança como pedestres e ciclistas. Em vários países europeus, programas de educação para mobilidade segura acompanham os estudantes desde os primeiros anos escolares, desenvolvendo gradualmente competências de percepção de risco, tomada de decisão e responsabilidade coletiva. No Japão, a educação para o trânsito começa muito cedo e envolve experiências práticas que ajudam crianças a compreender o comportamento do tráfego e a importância da atenção no ambiente urbano.

Essas experiências mostram algo essencial: segurança no trânsito não depende apenas de fiscalização ou punição. Depende de cultura. E cultura se forma por meio da educação.

O trânsito é um sistema social complexo. Nele convivem pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas disputando o mesmo espaço. Tomar decisões nesse ambiente exige percepção de risco, autocontrole, empatia e responsabilidade coletiva, habilidades que precisam ser desenvolvidas ao longo da formação das pessoas.

Quando a educação para o trânsito é tratada apenas como campanha eventual, perde-se a oportunidade de formar gerações mais conscientes e preparadas para lidar com essa complexidade. Inserir o tema de forma estruturada no currículo da Educação Básica permitiria desenvolver progressivamente conhecimentos, atitudes e comportamentos seguros, contribuindo para reduzir mortes, sequelas permanentes e os enormes custos sociais provocados pelos acidentes.

Se queremos transformar a realidade do trânsito brasileiro, precisamos compreender algo simples: segurança viária não começa na habilitação. Começa na escola, e quanto mais cedo essa aprendizagem acontecer, maiores serão as chances de construirmos uma cultura de responsabilidade, respeito e preservação da vida nas ruas e nas estradas.


O trânsito mata, mutila e custa bilhões ao país. Por que ainda não ensinamos isso na escola?

16/03/2026


Estamos nos aproximando de uma das maiores mobilizações de conscientização viária do país: o Maio Amarelo, campanha promovida pelo Observatório Nacional de Segurança Viária. O movimento, que mobiliza instituições públicas, empresas e sociedade civil, busca chamar a atenção para o alto número de mortos e feridos no trânsito brasileiro. A iniciativa é fundamental para sensibilizar a sociedade, mas também nos convida a refletir sobre uma pergunta essencial: estamos tratando a educação para o trânsito com a profundidade que o problema exige?

O Brasil continua pagando um preço alto pela forma como trata o trânsito. Mesmo quando alguns indicadores apontam queda no número de acidentes, o impacto humano e econômico permanece alarmante. Dados recentes mostram que milhares de pessoas ainda morrem todos os anos nas ruas e rodovias brasileiras, enquanto muitas outras sobrevivem com sequelas permanentes. Além da tragédia humana, existe um impacto direto sobre o sistema público de saúde: internações, cirurgias e longos processos de reabilitação que custam bilhões ao SUS. O trânsito, portanto, não é apenas um problema de mobilidade. É um problema social, econômico, de saúde pública e também educacional.

Em 2024, foram registradas 227.656 internações hospitalares no SUS devido a sinistros terrestres, o que significa que, a cada 2 minutos, uma vítima de trânsito necessita de atendimento de emergência. Ao longo dos últimos 10 anos, o SUS contabilizou 1,8 milhão de internações por sinistros de trânsito, com despesas hospitalares diretas que somam R$ 3,8 bilhões, segundo Flávio Adura, diretor Científico da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet).

Apesar disso, a educação para o trânsito ainda não ocupa um espaço estruturado no currículo da Educação Básica. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) menciona o tema dentro da formação cidadã, mas na prática ele aparece de forma pontual, muitas vezes restrito a campanhas ou atividades isoladas. Essa abordagem episódica ignora um fato fundamental: comportamentos no trânsito não se formam no momento em que alguém tira a carteira de habilitação. Eles são construídos ao longo da vida, desde a infância, na forma como as pessoas aprendem a perceber riscos, respeitar regras e conviver no espaço público.

Diversos países que alcançaram melhores resultados em segurança viária entenderam isso há décadas. Na Holanda, por exemplo, a educação para o trânsito faz parte do currículo do ensino fundamental e inclui atividades práticas que ensinam crianças a circular com segurança como pedestres e ciclistas. Em vários países europeus, programas de educação para mobilidade segura acompanham os estudantes desde os primeiros anos escolares, desenvolvendo gradualmente competências de percepção de risco, tomada de decisão e responsabilidade coletiva. No Japão, a educação para o trânsito começa muito cedo e envolve experiências práticas que ajudam crianças a compreender o comportamento do tráfego e a importância da atenção no ambiente urbano.

Essas experiências mostram algo essencial: segurança no trânsito não depende apenas de fiscalização ou punição. Depende de cultura. E cultura se forma por meio da educação.

O trânsito é um sistema social complexo. Nele convivem pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas disputando o mesmo espaço. Tomar decisões nesse ambiente exige percepção de risco, autocontrole, empatia e responsabilidade coletiva, habilidades que precisam ser desenvolvidas ao longo da formação das pessoas.

Quando a educação para o trânsito é tratada apenas como campanha eventual, perde-se a oportunidade de formar gerações mais conscientes e preparadas para lidar com essa complexidade. Inserir o tema de forma estruturada no currículo da Educação Básica permitiria desenvolver progressivamente conhecimentos, atitudes e comportamentos seguros, contribuindo para reduzir mortes, sequelas permanentes e os enormes custos sociais provocados pelos acidentes.

Se queremos transformar a realidade do trânsito brasileiro, precisamos compreender algo simples: segurança viária não começa na habilitação. Começa na escola, e quanto mais cedo essa aprendizagem acontecer, maiores serão as chances de construirmos uma cultura de responsabilidade, respeito e preservação da vida nas ruas e nas estradas.


O trânsito que temos é reflexo da educação que construímos

23/03/2026


O trânsito brasileiro não é apenas um problema de mobilidade, fiscalização ou infraestrutura. Ele é, sobretudo, um reflexo direto da formação que oferecemos ou deixamos de oferecer ao longo da Educação Básica. A forma como as pessoas se comportam nas vias públicas não surge no momento da habilitação. Ela é construída muito antes, nos anos em que valores, percepções e decisões começam a se consolidar.

Hoje, o que vemos nas ruas, imprudência, agressividade, baixa percepção de risco, desrespeito às regras, não pode ser tratado apenas como falha individual. Trata-se de um reflexo sistêmico de uma formação que não incorporou, de maneira estruturada, a educação para o trânsito como parte essencial do desenvolvimento humano e social.

Durante décadas, tratamos o trânsito como um tema técnico, restrito a normas e punições. Mas o comportamento no trânsito é, antes de tudo, uma expressão de competências que deveriam ser desenvolvidas na escola: tomada de decisão, autocontrole, empatia, responsabilidade coletiva e leitura de contexto. Quando essas competências não são trabalhadas de forma intencional, o resultado aparece exatamente onde não deveria: no risco cotidiano.

A própria Educação Básica já possui, em seu currículo, os elementos necessários para enfrentar essa realidade. A Física, a partir do 9º ano, trabalha conceitos como velocidade, aceleração, energia e impacto, conteúdos que poderiam ser diretamente aplicados à compreensão de acidentes e seus efeitos reais. A Matemática permite analisar distâncias, tempo de reação e probabilidades de risco. A Geografia discute mobilidade urbana, organização das cidades e uso do espaço. A História oferece a compreensão da evolução dos meios de transporte, das legislações e da cultura de circulação. A Filosofia e a Sociologia ampliam a discussão para ética, responsabilidade e comportamento coletivo.

O conhecimento existe. O que falta é intencionalidade. Hoje, a educação para o trânsito aparece de forma pontual, muitas vezes restrita a campanhas ou ações isoladas. Não há progressão, não há integração curricular consistente, não há avaliação de impacto. Isso cria uma lacuna formativa significativa: enquanto crianças e jovens já participam ativamente do trânsito como pedestres, ciclistas e passageiros, a escola não os prepara de forma sistemática para lidar com esse ambiente complexo.

Essa ausência cobra um preço alto. O país investe em fiscalização, endurece leis, amplia campanhas, mas continua lidando com um problema que nasce muito antes dessas medidas. Sem formação, toda intervenção posterior se torna corretiva e não preventiva.

Por isso, é necessário reposicionar o debate. A educação para o trânsito não pode ser tratada como um tema acessório ou eventual. Ela precisa ser reconhecida como uma dimensão estruturante da formação cidadã, com presença clara, contínua e integrada no currículo da Educação Básica.

Isso exige uma decisão de política pública. Cabe ao Ministério da Educação liderar esse movimento, transformando uma previsão já existente em prática efetiva. Isso significa orientar sistemas de ensino, apoiar escolas, formar professores e estabelecer diretrizes que garantam a integração do tema de forma consistente ao longo da trajetória escolar.

Se queremos reduzir acidentes, preservar vidas e construir uma cultura de respeito no trânsito, precisamos começar pela base. O trânsito que temos hoje é consequência direta da educação que construímos. O trânsito que queremos amanhã depende das escolhas que fazemos agora, dentro da escola.

A velocidade que você escolhe define o acidente que você pode não evitar

17/04/2026


O título pode parecer forte, mas ela traduz uma realidade que ainda é pouco compreendida no dia a dia do trânsito. Existe uma crença comum e perigosa de que “um pouco mais rápido” não faz diferença. Faz. E não é uma questão de opinião, é uma questão de física aplicada à vida real. 

Quando você está dirigindo, dois fatores invisíveis estão sempre em jogo: o tempo de reação e a distância de frenagem. O tempo de reação é humano. É o intervalo entre perceber um risco e tomar uma decisão. Em média, cerca de 1 segundo. Pode parecer pouco, mas no trânsito isso é uma eternidade.

A distância de frenagem é física. Depende da velocidade, das condições do veículo, da pista, dos pneus. E aqui está o ponto central: ela não cresce de forma proporcional. Quanto maior a velocidade, muito maior será a distância necessária para parar.

Vamos sair do conceito e ir para a prática. A 40 km/h, em um segundo de reação, você percorre cerca de 11 metros sem sequer tocar no freio. Só depois disso o carro começa a desacelerar, e ainda levará alguns metros até parar completamente. Agora, a 80 km/h, no mesmo 1 segundo, você já percorreu cerca de 22 metros antes de reagir e a distância de frenagem aumenta de forma significativa. O resultado é simples: o espaço necessário para parar praticamente triplica.

É aqui que a percepção falha. Muitos motoristas acreditam que estão no controle porque estão atentos, porque “dirigem bem” ou porque conhecem o trajeto. Mas o problema não está apenas na atenção. Está na Física. Muitos acidentes não acontecem porque o motorista não viu o perigo. Eles acontecem porque, quando percebe, já não existe mais tempo e nem espaço para evitar.

Velocidade não é só sobre chegar mais rápido. É sobre reduzir drasticamente a margem de erro e quando falamos em margem de erro no trânsito, estamos falando de vidas.

Esse é o tipo de compreensão que deveria fazer parte da formação desde cedo. No 9º ano do Ensino Fundamental, quando os alunos começam a ter contato com conceitos de Física como velocidade, aceleração e movimento, existe uma oportunidade enorme que muitas vezes é desperdiçada. Esses conteúdos acabam sendo tratados de forma abstrata, focados em fórmulas e exercícios descontextualizados.

Mas e se, em vez disso, esses conceitos fossem conectados diretamente com o cotidiano? E se o aluno entendesse, na prática, que aquela conta de velocidade está diretamente relacionada à distância que um carro percorre antes de frear? Que o tempo de reação não é apenas um número, mas uma variável que pode definir um acidente?

Nesse momento, a aprendizagem deixa de ser teórica e passa a ser significativa. A Física ganha sentido. O conhecimento ganha propósito e, principalmente, o comportamento começa a ser formado com base em compreensão, não apenas em regra.

Hoje, grande parte das ações no trânsito ainda está concentrada no efeito: multas, fiscalização, campanhas pontuais. Tudo isso é importante, mas insuficiente. A maioria das infrações não acontece por desconhecimento da lei. Acontece por comportamento. Uso de celular, excesso de velocidade, avanço de sinal são decisões que são construídas ao longo do tempo, a partir de repertório, consciência e formação.

Se queremos um trânsito mais seguro, precisamos começar antes. Muito antes. Precisamos trazer o trânsito para dentro da educação básica de forma estruturada, integrada, interdisciplinar. Não como um tema isolado, mas como parte da formação cidadã.

O trânsito não começa no volante. Começa na forma como pensamos, decidimos e nos relacionamos com o outro. Respeitar o limite de velocidade não é apenas cumprir uma regra. É entender que, diante de um imprevisto, você precisa de espaço físico e de decisão para agir e esse espaço diminui a cada quilômetro a mais.

Dirigir é, o tempo todo, um exercício de escolha e algumas não dão segunda chance.

Educação para o Trânsito: o desafio que começa antes do aluno – começa no educador

23/03/2026


Nos últimos anos, tem crescido a defesa pela inserção estruturada da Educação para o Trânsito na Educação Básica. O argumento é legítimo, necessário e urgente. Em um país que registra mais de 37 mil mortes por ano no trânsito, qualquer proposta que aponte para a formação de comportamento precisa ser levada a sério.

Mas existe uma pergunta que, embora desconfortável, precisa ser feita com honestidade: estamos, de fato, preparados para ensinar aquilo que ainda não conseguimos consolidar como prática social?

O trânsito não é apenas um conjunto de regras. Ele é, essencialmente, um espaço de manifestação de comportamento humano em estado bruto. É ali que aparecem, sem mediação, valores como respeito, responsabilidade, empatia ou a ausência deles, e é justamente por isso que a Educação para o Trânsito não pode ser tratada como um conteúdo informativo. Ela é, antes de tudo, uma formação comportamental.

Nesse ponto, surge uma tensão silenciosa dentro da própria escola. O professor, figura central no processo educativo, também é agente do trânsito. Ele não observa esse fenômeno de fora. Ele vive o trânsito diariamente. Ele também enfrenta pressa, toma decisões, comete erros, justifica escolhas. Ele também está inserido na mesma cultura que, muitas vezes, normaliza pequenas infrações, relativiza riscos e transforma exceções em rotina e aqui está o ponto mais sensível, e mais negligenciado, dessa discussão: como estruturar a Educação para o Trânsito na Educação Básica sem considerar a formação comportamental de quem irá conduzir esse processo?

Não se trata de julgamento individual. Seria simplista e improdutivo reduzir o debate a uma análise moral do comportamento do professor. O problema é mais profundo. Trata-se de reconhecer que não existe formação consistente de comportamento quando há um desalinhamento entre discurso e prática.

A escola, historicamente, tem conseguido trabalhar bem com conteúdos conceituais, mas enfrenta dificuldades quando o objeto de ensino é o próprio comportamento humano, especialmente quando esse comportamento também atravessa quem ensina.

Por isso, o modelo atual, quando aborda o trânsito, costuma se apoiar em ações pontuais: campanhas, palestras, atividades isoladas. São iniciativas válidas, mas insuficientes. Elas informam, sensibilizam momentaneamente, mas raramente transformam. Transformação exige continuidade, intencionalidade e, principalmente, coerência que não nasce de cobrança, nasce de formação.

Se queremos que a Educação para o Trânsito ocupe um espaço estruturado no currículo, precisamos ampliar o foco. Não basta discutir o que ensinar aos alunos. É necessário discutir como preparar o educador para lidar com esse tema de forma consciente, crítica e responsável.

Isso implica reconhecer que o professor também precisa de espaços de reflexão sobre seu próprio comportamento no trânsito. Não como forma de exposição, mas como parte legítima de sua formação profissional. Assim como se discute ética, cidadania e convivência em outros contextos, o trânsito precisa entrar nesse campo de análise.

Além disso, é fundamental compreender que o trânsito oferece uma oportunidade pedagógica única: ele conecta teoria e prática de forma imediata. O aluno não precisa esperar o futuro para aplicar o que aprende. Ele já participa do trânsito hoje, como pedestre, passageiro, ciclista e observa, diariamente, o comportamento dos adultos ao seu redor.

Isso amplia ainda mais a responsabilidade da escola. O que está em jogo não é apenas ensinar normas de circulação. É contribuir para a formação de cidadãos capazes de tomar decisões responsáveis em ambientes complexos, onde suas escolhas impactam diretamente a vida de outras pessoas e esse tipo de formação não se constrói apenas com conteúdo. Se constrói com exemplo, reflexão e consciência.

Talvez o maior avanço que possamos fazer nesse debate seja justamente abandonar a ilusão de que a Educação para o Trânsito se resolve com mais informação. O desafio é outro e é mais profundo. É formativo, é cultural, é humano e começa, inevitavelmente, por quem ensina.

Se não tivermos coragem de incluir o educador nesse processo de formação, não como alguém a ser julgado, mas como alguém a ser desenvolvido, corremos o risco de construir um currículo bem estruturado no papel, mas frágil na prática e, mais uma vez, o trânsito continuará nos mostrando aquilo que insistimos em não enfrentar: que o problema nunca foi apenas a regra. Sempre foi e continua sendo o comportamento.

E talvez esteja aí a pergunta que realmente importa: estamos dispostos a transformar a Educação para o Trânsito em uma política de formação real ou continuaremos tratando o tema como um conteúdo conveniente, que não exige mudança de quem ensina?

Estruturar a Educação para o Trânsito na Educação Básica não é apenas uma decisão curricular. É uma decisão de coerência e toda coerência começa pelo exemplo.

O trânsito mata mais que armas de fogo. Por que isso não nos choca?

07/05/2026


Hoje, no Brasil, o trânsito mata mais do que as armas de fogo e talvez o mais preocupante seja o fato de que isso já começou a parecer normal.

Em 2024, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, o país registrou 37.150 mortes no trânsito, o maior número dos últimos oito anos. No mesmo período, os óbitos por armas de fogo ficaram em torno de 30 mil mortes anuais.

A comparação é inevitável e desconfortável. Quando uma morte envolve arma de fogo, há comoção, debate público, cobertura intensa da mídia e pressão social imediata, mas quando milhares de pessoas morrem nas ruas e rodovias brasileiras, frequentemente tratamos isso como fatalidade, rotina ou estatística, e não é.

O trânsito não mata por acaso. Ele mata por comportamento, cultura, decisão e ausência de formação. Talvez exista uma diferença importante entre esses dois cenários: a violência armada costuma ser percebida como ameaça externa. Já a violência no trânsito foi incorporada ao cotidiano.

Nós nos acostumamos ao excesso de velocidade, ao celular durante deslocamentos, à distração, à imprudência vista como “normal”, ao famoso “vai dar tempo”.

O problema é que a física não negocia e o trânsito também não.

Essa desconexão fica ainda mais evidente quando olhamos para dentro do próprio setor educacional. Durante minha visita à Bett Brasil, um dos principais eventos de inovação em educação do país, praticamente não encontrei iniciativas, soluções ou discussões relevantes sobre Educação para o Trânsito. Em meio a tantas tecnologias, metodologias e discursos sobre o futuro da educação, ignorar um problema que mata mais de 100 brasileiros por dia revela uma prioridade equivocada ou, no mínimo, uma ausência preocupante de intencionalidade.

Outro ponto chama atenção: enquanto o debate sobre armas costuma envolver segurança pública, legislação e policiamento, o trânsito ainda é tratado majoritariamente como questão operacional e não educacional. Esse talvez seja o maior erro do país.

Nenhuma sociedade muda comportamento coletivo apenas com campanhas pontuais. Mudança real exige formação contínua.

A Base Nacional Comum Curricular já reconhece o trânsito como tema contemporâneo transversal, mas, na prática, a Educação para o Trânsito ainda aparece de forma superficial, episódica e quase sempre limitada ao Maio Amarelo.

Enquanto isso, seguimos perdendo mais de 100 vidas por dia e talvez a pergunta mais importante seja: por que o Brasil debate tão pouco uma violência que mata mais do que armas de fogo?

Talvez porque o trânsito revele algo desconfortável: não estamos falando apenas de infraestrutura ou fiscalização, estamos falando de nós, de hábitos, de escolhas e de de cultura.

O que Kellogg, um chimpanzé e uma criança têm a ver com o Memorial do Trânsito?

13/05/2026


A experiência de Winthrop e Luella Kellogg, realizada na década de 1930, ficou conhecida pelo livro The Ape and the Child. O casal criou a chimpanzé Gua junto de seu filho Donald, em condições semelhantes, para observar até que ponto o ambiente influenciava o comportamento. O estudo durou cerca de nove meses e, embora hoje seja visto com muitas ressalvas éticas, deixou uma reflexão importante: comportamentos são profundamente moldados pela convivência, pela repetição e pelo exemplo.

Essa ideia dialoga diretamente com a filosofia do Memorial do Trânsito.

No trânsito, também ensinamos antes de explicar. Uma criança aprende quando vê o adulto colocar o cinto, respeitar a faixa, reduzir a velocidade, guardar o celular, ceder passagem ou, ao contrário, avançar o sinal, buzinar com agressividade e tratar a lei como obstáculo. Muito antes da autoescola, ela já acumulou anos de observação sobre como os adultos se comportam no espaço público.

A teoria da aprendizagem social, associada a Albert Bandura, reforça esse ponto: pessoas aprendem observando outras pessoas, especialmente quando determinado comportamento parece aceitável, repetido ou recompensado.

É por isso que o Memorial do Trânsito defende a Educação para o Trânsito na Educação Básica de forma intencional, contínua e curricular. Não basta esperar que o cidadão chegue à idade de tirar a CNH para começar a falar sobre responsabilidade, risco, coletividade e preservação da vida.

O comportamento no trânsito não nasce no volante. Nasce na infância, no banco de trás, na calçada, na travessia da rua, no exemplo cotidiano.

A própria BNCC reconhece a Educação para o Trânsito como Tema Contemporâneo Transversal, o que permite integrá-la às áreas do conhecimento e ao cotidiano escolar. Mas o desafio é sair da menção genérica e construir prática pedagógica real: projetos, sequências didáticas, leitura crítica da cidade, física do movimento, cidadania, empatia, convivência e tomada de decisão.

A Organização Mundial da Saúde estima cerca de 1,19 milhão de mortes anuais no trânsito no mundo, e os sinistros de trânsito seguem entre as principais causas de morte de crianças e jovens de 5 a 29 anos. Diante disso, tratar trânsito apenas como assunto de adulto é um erro formativo.

A lição que podemos retirar de Kellogg, sem romantizar o experimento, é simples: o ambiente educa. O exemplo educa. A repetição educa. Se a criança aprende modos de falar, reagir, conviver e resolver conflitos observando os adultos, também aprende como se comportar no trânsito observando os adultos. Por isso, o Memorial do Trânsito sustenta uma ideia central: não formamos condutores apenas na autoescola; formamos cidadãos no cotidiano.

E, quando a escola assume esse papel, o trânsito deixa de ser apenas um problema de fiscalização e passa a ser também uma questão de cultura, aprendizagem e responsabilidade coletiva.

Apagão de Dados: como a defasagem estatística cega a gestão do Trânsito e custa vidas

07/07/2026

No primeiro semestre de 2026, as ruas e rodovias brasileiras continuaram a ser palco de uma tragédia silenciosa e diária. Entre as principais vítimas, os motociclistas lideram com folga as estatísticas de letalidade. No entanto, quem tenta debruçar-se sobre os números exatos desse período para propor soluções esbarra em um obstáculo burocrático crônico: a defasagem dos dados oficiais.

Embora plataformas de monitoramento e painéis de inteligência viária representem um avanço tecnológico inegável, a velocidade com que os dados são consolidados e disponibilizados pública e oficialmente é incompatível com a urgência que o trânsito exige. Essa lacuna temporal não é apenas um problema para pesquisadores e jornalistas, é um fator de paralisia para o próprio poder público.


O custo da cegueira estatística

Gerenciar a segurança viária sem dados em tempo real é o equivalente a pilotar às cegas. Para que uma política pública de trânsito seja eficiente, ela precisa ser cirúrgica. Se um determinado cruzamento urbano ou um quilômetro específico de uma rodovia registra um pico de acidentes com motociclistas em janeiro, a engenharia de tráfego precisa intervir em fevereiro, seja alterando o tempo de um semáforo, melhorando a sinalização, corrigindo o asfalto ou intensificando a fiscalização.

Quando esses dados demoram meses para serem processados, consolidados e publicados pelas secretarias e órgãos de trânsito, a reação do Estado torna-se tardia e ineficaz. O poder público passa a agir de forma reativa a cenários do passado, enquanto novas vidas continuam sendo perdidas no presente por falhas que já poderiam ter sido corrigidas.

Diagnósticos defasados, soluções genéricas

A lentidão na atualização das bases de dados gera outro efeito colateral perigoso: a adoção de medidas genéricas. Sem saber os detalhes específicos do semestre vigente, como a variação nos horários das ocorrências, o perfil demográfico exato das vítimas ou os principais fatores de distração e imprudência daquele momento, as prefeituras e órgãos de mobilidade recorrem a campanhas publicitárias padronizadas que muitas vezes não conversam com a realidade imediata das ruas.

A prevenção de acidentes de trânsito exige o que a ciência de dados chama de "análise preditiva". É preciso cruzar informações de frota, comportamento e infraestrutura quase em tempo real para prever e mitigar riscos.


A urgência da resposta em tempo real

A tecnologia para mudar esse cenário já existe. Sistemas de notificação de acidentes integrados entre a polícia, o SAMU, os hospitais e os agentes de trânsito poderiam alimentar mapas de calor instantâneos. O que falta, muitas vezes, é a integração federativa e a desburocratização dos fluxos de informação.

Tratar a estatística de trânsito como um relatório que se fecha apenas no fim do ano, ou com meses de atraso, é ignorar que cada número ali representa uma família devastada. Enquanto o poder público não priorizar a atualização em tempo real de suas bases de dados, continuará a chegar atrasado ao local do acidente e a incapacidade de prevenir se tornará, por omissão estrutural, uma forma de negligência.

A ilusão do controle: por que os acidentes com carros de alta performance dizem mais sobre o comportamento humano do que sobre os automóveis.

14/07/2026

No último final de semana, dois acidentes envolvendo veículos Porsche ocuparam espaço na imprensa e nas redes sociais. Um em Campinas e outro na Rodovia dos Imigrantes. Mais do que chamar atenção pela marca dos automóveis, eles reacenderam uma discussão recorrente sobre velocidade, comportamento humano e os limites entre tecnologia e responsabilidade ao volante. Em ambos os casos, vidas foram perdidas.

Quase sempre, a primeira pergunta é a mesma:

"Como um carro desses pode acontecer isso?"

A Porsche, neste contexto, é apenas o cenário. Não escrevo este artigo para discutir uma fabricante específica. Poderia ser uma Ferrari, uma BMW, uma motocicleta de alta cilindrada ou qualquer veículo capaz de atingir velocidades muito superiores às permitidas nas vias brasileiras. A Porsche apenas se tornou o símbolo de uma reflexão muito maior. O problema nunca foi apenas o carro.

A necessidade de encontrar um culpado

Existe uma tendência natural do ser humano de buscar explicações simples para acontecimentos complexos.

Quando um acidente dessa magnitude acontece, atribuir a culpa ao veículo oferece uma sensação de conforto. Afinal, se o problema está na máquina, basta evitá-la.

Exemplos de comentários feitos nas mídias sociais:

  • "Esses carros não deveriam circular nas ruas."
  • "A Porsche vende potência demais para o uso urbano."
  • "A marca vende um estilo de vida baseado em velocidade."
  • "Carros assim deveriam ter limitadores eletrônicos mais rígidos."
  • "É um carro perigoso."

Os comentários ignoram um fato incontestável. Nenhum automóvel acelera sozinho. Nenhum motor decide ultrapassar os limites da via. Nenhum sistema eletrônico escolhe assumir riscos. Toda decisão continua sendo humana. É justamente por isso que reduzir o debate à potência do veículo significa desviar o olhar do verdadeiro problema.


O perfil que se repete

Há outro aspecto que merece reflexão. Os dois acidentes envolveram homens jovens, com acesso à educação formal, inseridos em um contexto de oportunidades que muitos brasileiros sequer alcançam e ainda assim, tornaram-se protagonistas de tragédias que se repetem diariamente nas estatísticas nacionais.

Isso não é coincidência. Os dados mostram que homens, especialmente os mais jovens, estão desproporcionalmente envolvidos nos acidentes de maior gravidade. Não porque sejam biologicamente mais propensos ao risco, mas porque fatores comportamentais, como excesso de confiança, impulsividade, busca por sensações intensas e superestimação das próprias habilidades, aparecem com maior frequência nesse grupo.

Há, porém, uma reflexão que considero ainda mais importante. Esses jovens receberam instrução. Frequentaram escolas, universidades e tiveram acesso ao conhecimento formal, mas, como milhões de brasileiros, não passaram por uma Educação para o Trânsito estruturada, intencional e integrada ao currículo escolar.

E existe uma diferença profunda entre instrução e educação. A instrução transmite conhecimentos, mas a Educação forma comportamentos. Ensina a reconhecer limites, a controlar impulsos, a avaliar riscos, a compreender que toda decisão ao volante produz consequências para si e para os outros.

No Brasil, ainda esperamos que essas competências sejam desenvolvidas quase exclusivamente durante o processo de habilitação. É uma expectativa tardia. Quando o jovem chega à autoescola, muitos de seus padrões de comportamento, percepção de risco e relação com os limites já foram construídos ao longo da vida.

É por isso que defendo que a Educação para o Trânsito ocupe um espaço permanente na Educação Básica, não como um tema ocasional ou uma campanha de conscientização, mas como parte intencional do currículo. Assim como ensinamos Matemática, Ciências e Língua Portuguesa, precisamos ensinar crianças e adolescentes a tomar decisões seguras, compreender os limites impostos pela Física, desenvolver autocontrole e reconhecer que dirigir é, antes de tudo, um ato de responsabilidade coletiva.


A ilusão do controle

A Psicologia Cognitiva descreve um fenômeno conhecido como ilusão do controle. Ele ocorre quando uma pessoa acredita possuir maior domínio sobre uma situação do que realmente possui.

No trânsito, esse fenômeno aparece diariamente. Motoristas experientes passam anos sem sofrer acidentes e concluem, silenciosamente, que dirigem melhor do que a média. Começam a acreditar que conseguem frear mais tarde, fazer curvas com maior velocidade, antecipar qualquer situação inesperada, ou seja, controlar qualquer veículo.

Essa confiança exagerada é reforçada por outro viés psicológico: o da invulnerabilidade. É a velha sensação de que: "comigo não acontece."

O problema é que acidentes não acontecem apenas por falta de habilidade. Eles acontecem porque existem limites físicos que nenhuma experiência consegue superar.

A Física não faz concessões

Como professor de Física durante muitos anos, aprendi que as leis da natureza não fazem distinção entre marcas, modelos ou capacidade financeira. A Física não sabe se o carro custa cinquenta mil ou dois milhões de reais. Ela apenas responde às suas próprias leis.

A energia cinética aumenta proporcionalmente ao quadrado da velocidade. Isso significa que pequenas variações no velocímetro representam aumentos enormes na energia que precisará ser dissipada em uma colisão. Ao mesmo tempo, o tempo de reação humano permanece praticamente o mesmo. Entre perceber um perigo e iniciar a frenagem, um motorista leva, em média, cerca de um segundo. A velocidades elevadas, esse único segundo representa dezenas de metros percorridos antes mesmo que os freios sejam acionados.

Depois disso, ainda existe a distância necessária para parar completamente o veículo. É nesse momento que muitos confundem potência com capacidade de controle. Nenhum sistema eletrônico consegue anular completamente as leis da Física.


O paradoxo da tecnologia

Existe outro aspecto pouco discutido e talvez seja um dos mais perigosos. Quanto melhor o automóvel, menor tende a ser nossa percepção da velocidade. Carros de alta performance oferecem estabilidade excepcional. 

Suspensões sofisticadas absorvem imperfeições do piso, o isolamento acústico reduz significativamente os ruídos externos, a direção transmite extrema precisão, os controles eletrônicos corrigem pequenos desvios quase imperceptivelmente. Tudo isso produz uma consequência inesperada.

O cérebro passa a receber menos estímulos indicando que aquela velocidade já se tornou crítica, o motorista continua sentindo que está absolutamente no controle, mas essa percepção é enganosa. Enquanto a sensação subjetiva permanece confortável, a energia envolvida em um eventual impacto cresce de forma exponencial.

A tecnologia amplia a margem de segurança, mas também pode ampliar, involuntariamente, a confiança do condutor além daquilo que sua capacidade de reação consegue administrar.

É um paradoxo. Quanto mais seguro o carro parece, maior pode ser a tentação de ultrapassar limites que jamais deveriam ser ultrapassados.


O verdadeiro desafio continua sendo humano

Durante décadas, investimos em veículos mais seguros com freios ABS, controle eletrônico de estabilidade, airbags, estruturas com zonas programadas de deformação, assistentes eletrônicos de condução e tudo isso salvou milhares de vidas, mas existe uma tecnologia que continua muito atrasada: o comportamento humano.

Impulsividade, excesso de confiança, competitividade, busca por demonstração de habilidade, dificuldade em reconhecer os próprios limites. Todos esses fatores continuam sendo responsáveis por uma parcela significativa das tragédias no trânsito.

É por isso que defendo, por meio do Memorial do Trânsito, que a transformação da segurança viária passa necessariamente pela Educação. Não apenas pela educação para obter uma habilitação, mas por uma educação capaz de desenvolver autocontrole, percepção de risco, inteligência emocional, empatia e responsabilidade coletiva desde a infância.

Dirigir não é apenas dominar um veículo, é administrar emoções, compreender limites, é tomar decisões conscientes quando ninguém está fiscalizando.


A pergunta que realmente importa

Talvez a pergunta nunca tenha sido: "quem consegue dirigir uma Porsche?"

A pergunta correta talvez seja outra. Quem consegue resistir à ilusão de acreditar que domina completamente uma máquina capaz de acelerar muito além da capacidade humana de reagir?

Enquanto continuarmos atribuindo a culpa apenas aos automóveis, estaremos deixando de enfrentar aquilo que realmente precisa ser transformado. Porque o maior equipamento de segurança de qualquer veículo continua sendo quem ocupa o banco do motorista e nenhuma tecnologia será capaz de substituir o discernimento, a humildade e o respeito pela vida.

Quando a segurança deixa de depender da memória

20/07/2026

Durante décadas, a educação para o trânsito concentrou seus esforços em ensinar regras, apresentar estatísticas e conscientizar motoristas sobre os riscos da imprudência. No entanto, uma pergunta permanece sem resposta satisfatória: por que pessoas que conhecem perfeitamente as normas de circulação ainda deixam de realizar ações simples e fundamentais, como acionar a seta antes de uma conversão, verificar os retrovisores antes de mudar de faixa ou manter uma distância segura do veículo à frente? A resposta pode estar menos no desconhecimento das regras e mais na forma como o cérebro humano aprende, organiza e automatiza comportamentos.

A neurociência demonstra que o cérebro busca constantemente maneiras de economizar energia. Embora represente apenas cerca de 2% da massa corporal, ele consome aproximadamente um quinto da energia produzida pelo organismo em repouso. Para lidar com essa demanda, o sistema nervoso transforma tarefas repetidas em ações automáticas, reduzindo o esforço consciente necessário para executá-las. Esse processo, conhecido como automatização do comportamento (automaticity), permite que atividades inicialmente complexas passem a ser realizadas quase sem reflexão, liberando recursos cognitivos para lidar com situações novas ou inesperadas.

É exatamente isso que acontece quando aprendemos a dirigir. Nas primeiras aulas, cada movimento exige atenção intensa. O aprendiz pensa na posição dos pés, na troca de marchas, na força aplicada aos pedais, na direção do volante, na velocidade e na observação do ambiente. Cada ação precisa ser conscientemente planejada. Com o passar do tempo, porém, a repetição modifica a forma como o cérebro executa essas tarefas. A coordenação motora torna-se mais eficiente, os movimentos ganham fluidez e muitas ações deixam de depender da atenção consciente. O motorista experiente raramente pensa em qual pedal deve pressionar ou em qual marcha deve engatar. Seu cérebro simplesmente executa essas tarefas por meio da memória procedimental, sistema responsável pelo armazenamento de habilidades motoras e hábitos adquiridos ao longo da prática.

Essa capacidade de automatização é um dos maiores recursos do cérebro humano, mas também representa um desafio para a segurança viária. O cérebro não distingue comportamentos corretos de comportamentos inadequados; ele automatiza aquilo que é repetido. Se um condutor desenvolve o hábito de acionar a seta antes de toda conversão, essa ação tende a tornar-se tão natural quanto trocar de marcha ou ajustar a direção. Em determinado momento, ele já não liga a seta porque se lembra da obrigação prevista no Código de Trânsito Brasileiro, mas porque seu cérebro incorporou aquele comportamento ao repertório motor. Da mesma forma, um motorista que repetidamente deixa de sinalizar suas manobras também pode automatizar esse erro, tornando a omissão parte de sua rotina de condução.

Essa diferença ajuda a explicar por que dois motoristas com o mesmo nível de conhecimento das normas podem apresentar comportamentos completamente distintos. Um deles precisa lembrar de ligar a seta a cada conversão e, quando está cansado, distraído ou sob pressão, frequentemente esquece. O outro simplesmente aciona o dispositivo antes mesmo de iniciar a manobra, sem perceber conscientemente que tomou essa decisão. O que distingue esses dois condutores não é necessariamente a consciência sobre a importância da sinalização, mas o grau de automatização desse comportamento.

Essa constatação conduz a uma reflexão importante sobre a educação para o trânsito. Historicamente, grande parte das campanhas educativas procura convencer as pessoas da importância de determinados comportamentos. Explicam os riscos, apresentam estatísticas, exibem imagens impactantes e apelam para a racionalidade do motorista.

Essas iniciativas são fundamentais para construir conhecimento e sensibilização, mas podem não ser suficientes para promover mudanças duradouras. Saber o que deve ser feito não garante que a ação ocorrerá no momento necessário, especialmente em um ambiente complexo como o trânsito, onde a atenção é constantemente dividida entre múltiplos estímulos.Dirigir é uma das atividades cotidianas que mais exige processamento simultâneo de informações. Enquanto conduz um veículo, o motorista controla velocidade, direção, aceleração, frenagem, interpreta placas, observa pedestres, monitora retrovisores, calcula distâncias, antecipa movimentos de outros veículos e toma decisões em frações de segundo. Se todas essas tarefas dependessem exclusivamente da atenção consciente, a condução seria praticamente inviável. A automatização de habilidades motoras é, portanto, indispensável para que o cérebro consiga lidar com a complexidade do trânsito. Entretanto, exatamente por isso, torna-se essencial garantir que os comportamentos automatizados sejam aqueles que promovem segurança, e não aqueles que aumentam o risco.

Esse entendimento sugere que a educação para o trânsito precisa ampliar seu foco. Ensinar regras continua sendo indispensável, mas a formação de condutores seguros exige mais do que transmitir informações. É necessário criar condições para que comportamentos desejáveis sejam repetidos de forma consistente até se transformarem em hábitos. A prática deliberada, o reforço positivo, a repetição em diferentes contextos e o treinamento contínuo desempenham papel decisivo nesse processo. Não basta que o motorista saiba que deve verificar o retrovisor antes de mudar de faixa; é preciso que essa ação ocorra espontaneamente, mesmo quando ele estiver cansado, preocupado ou enfrentando uma situação inesperada.

Essa perspectiva aproxima a educação para o trânsito dos princípios da aprendizagem significativa e da neuroplasticidade. Cada repetição fortalece circuitos neurais específicos, facilitando a execução futura daquele comportamento. Aplicados ao trânsito, esses conhecimentos indicam que uma política de educação verdadeiramente eficaz não deve medir seu sucesso apenas pelo número de pessoas que conhecem as normas, mas pela quantidade de comportamentos seguros incorporados ao repertório automático dos condutores. O objetivo final não é formar motoristas que se lembrem de ligar a seta, mas motoristas que simplesmente a liguem. Não é formar pessoas que precisem pensar em colocar o cinto de segurança, mas pessoas que sintam que falta algo quando ainda não o colocaram. Não é depender da memória para agir corretamente, mas construir hábitos que façam da segurança uma resposta natural do cérebro.

Talvez esse seja um dos maiores desafios da segurança viária nas próximas décadas. Se quisermos reduzir acidentes de forma consistente, será necessário compreender que conhecimento e comportamento não são sinônimos. O conhecimento informa; o hábito transforma. Quando a educação consegue converter uma atitude segura em um comportamento automático, ela deixa de depender da lembrança, da disposição momentânea ou da força de vontade do motorista. Nesse momento, a segurança deixa de ser apenas uma decisão racional e passa a fazer parte da própria maneira de dirigir. É nessa transformação silenciosa, construída pela repetição e consolidada pela neurociência, que pode residir uma das mais poderosas ferramentas para salvar vidas no trânsito.

O vendaval revelou a cidade que queremos. Agora falta levá-la para o trânsito.

28/07/2026


Na última sexta-feira, Ribeirão Preto viveu um dos episódios mais marcantes de sua história recente. Em poucas horas, ventos intensos derrubaram árvores, interromperam o fornecimento de energia elétrica, danificaram imóveis e alteraram completamente a rotina da cidade. O cenário era de destruição, mas, em meio ao caos, surgiu algo muito maior que os estragos provocados pela tempestade. Surgiu uma cidade solidária.

Pessoas ofereceram abrigo a desconhecidos, comerciantes distribuíram água e alimentos, voluntários removeram árvores das vias, vizinhos ajudaram vizinhos e milhares de pessoas utilizaram as redes sociais para oferecer ajuda sem esperar qualquer recompensa. Por alguns dias, não importavam profissão, posição social, religião ou ideologia. O que importava era ajudar. Talvez o maior legado desse episódio seja justamente esse: Ribeirão Preto descobriu, ou melhor, relembrou, quem ela é quando as circunstâncias exigem o melhor das pessoas.

A pergunta que fica é inevitável. Por que essa mesma solidariedade desaparece quando entramos em um automóvel?

No trânsito, frequentemente encontramos um comportamento completamente diferente. Disputamos espaço, aceleramos para impedir uma conversão, ignoramos o pedestre, economizamos um segundo às custas da segurança do outro e transformamos pequenos deslocamentos em disputas silenciosas por prioridade.

É curioso perceber que as mesmas pessoas que ajudaram a empurrar um carro preso sob uma árvore podem, no dia seguinte, deixar de dar passagem a outro motorista por uma questão de orgulho. Não porque sejam pessoas diferentes, mas porque o contexto muda a forma como enxergamos quem está ao nosso redor.

Durante uma tragédia, vemos pessoas. No trânsito, muitas vezes vemos apenas veículos. Entretanto, dentro de cada carro existe alguém que também tem pressa para buscar um filho, que está indo para uma consulta médica, voltando do trabalho ou simplesmente tentando chegar em casa. Humanizar o trânsito talvez seja exatamente isso: voltar a enxergar pessoas onde hoje enxergamos apenas automóveis. 

Existe um pequeno gesto praticado no Japão que simboliza muito bem essa ideia. Quando um motorista recebe uma gentileza, como uma oportunidade para mudar de faixa ou entrar em uma via, é comum agradecer acionando rapidamente o pisca-alerta por duas vezes. Não se trata de uma obrigação prevista em lei, mas de uma manifestação espontânea de respeito.

O gesto dura menos de dois segundos, mas seus efeitos podem durar muito mais. Quando alguém percebe que sua atitude foi reconhecida, cresce a tendência de repetir aquele comportamento. A gentileza deixa de ser uma exceção e começa a construir uma cultura. É exatamente assim que sociedades evoluem: pela repetição de pequenas atitudes positivas.

Imagine se Ribeirão Preto transformasse essa ideia em um movimento coletivo. Imagine se cada gentileza recebida fosse acompanhada por um simples agradecimento. Imagine se dar passagem deixasse de ser sinal de ingenuidade para se tornar motivo de orgulho. Imagine se o respeito que vimos nascer durante o vendaval permanecesse vivo também nos cruzamentos, nas avenidas e nas rodovias. Não seriam necessárias grandes obras nem mudanças na legislação. Seria suficiente mudar a cultura.

O vendaval mostrou que Ribeirão Preto possui um enorme patrimônio humano. A solidariedade demonstrada por milhares de pessoas não foi criada pela tempestade; ela apenas veio à tona quando a cidade mais precisou. Agora temos uma oportunidade rara. Transformar essa solidariedade, que emocionou o Brasil, em um novo jeito de viver o trânsito.

Porque uma cidade que aprende a agradecer também aprende a respeitar e talvez o primeiro passo para construir o melhor trânsito do Brasil não esteja em uma nova placa, em um radar ou em uma multa. Talvez ele comece com um gesto simples: duas piscadas, um agradecimento e a decisão de levar para o trânsito a mesma humanidade que Ribeirão Preto demonstrou quando mais precisou dela.

Você acha que o Código de Trânsito termina no portão do condomínio ou na entrada do shopping?

05/08/2026


Todos os dias, milhares de pessoas entram em condomínios residenciais, estacionamentos de shoppings, supermercados, hospitais e universidades e, quase automaticamente, muitas passam a dirigir de forma diferente.

A seta deixa de ser utilizada. A velocidade aumenta. A preferência ao pedestre nem sempre é respeitada. O estacionamento passa a ser visto como um espaço "sem regras". Mas será que isso é verdade? A resposta é não.

O Código de Trânsito Brasileiro vai muito além das ruas e avenidas públicas. Desde a alteração promovida pela Lei nº 13.146/2015, as vias internas de condomínios e as áreas de estacionamento de estabelecimentos privados de uso coletivo também passaram a integrar o alcance do CTB.

Isso significa que esses locais não são territórios sem normas. Pelo contrário, devem possuir sinalização adequada, seguindo os padrões estabelecidos pelo CONTRAN, sendo responsabilidade do proprietário ou da administração providenciar sua implantação e manutenção, mas, na minha visão, a questão mais importante não é jurídica. É comportamental.

Por que alguém que respeita a velocidade na rua acelera dentro do condomínio onde moram crianças? Por que um motorista que sinaliza todas as conversões deixa de usar a seta ao procurar uma vaga no shopping? Por que justamente em locais onde circulam idosos, famílias, entregadores, ciclistas e pedestres a atenção costuma diminuir?

A resposta pode estar na forma como nosso cérebro funciona. Ambientes conhecidos induzem à automatização do comportamento. Quando repetimos diariamente o mesmo trajeto, tendemos a reduzir a atenção consciente e a agir no "piloto automático". É exatamente nesses momentos que pequenos erros acontecem.

E são justamente esses pequenos comportamentos que sempre procurei destacar no Memorial do Trânsito. Segurança não começa apenas na fiscalização ou na instalação de uma placa. Ela começa quando compreendemos que o trânsito é qualquer espaço onde pessoas e veículos convivem. Condomínios, shoppings, supermercados, hospitais e universidades não são exceções.

São ambientes onde convivemos diariamente e onde pequenas atitudes também produzem grandes impactos. Talvez esteja na hora de ampliarmos nosso conceito de educação para o trânsito. Em vez de pensar apenas nas vias públicas, precisamos olhar para todos os espaços onde a mobilidade acontece. Porque o trânsito não começa quando atravessamos o portão. Ele começa quando nossas escolhas podem impactar a segurança de outra pessoa.

E você? Antes de ler este artigo, sabia que o CTB também alcança as vias internas de condomínios e os estacionamentos de uso coletivo? Na sua opinião, qual é o comportamento mais comum que deveria mudar nesses ambientes?

Gentileza no trânsito: quando ceder espaço faz o sistema avançar

20/08/2026

Quando falamos em melhorar o trânsito, quase sempre pensamos nas mesmas soluções: ampliar avenidas, construir viadutos, melhorar a sinalização, aumentar a fiscalização, instalar semáforos inteligentes ou investir em transporte público.

Tudo isso é necessário, mas existe uma variável que interfere diariamente no funcionamento do sistema viário e que dificilmente aparece nos projetos de engenharia: o comportamento de quem está dentro dos veículos.

Imagine uma situação absolutamente comum. Um motorista precisa mudar de faixa. Ele sinaliza com antecedência, mas o veículo ao lado acelera para impedir sua entrada. O primeiro motorista freia, tenta novamente alguns metros depois e outro condutor também não permite. Atrás dele, outros veículos começam a reduzir a velocidade. Alguém freia mais bruscamente, outro muda de faixa e uma pequena perturbação começa a se propagar pela via.

Agora imagine a mesma situação com uma diferença: ao perceber a seta, o motorista da faixa ao lado simplesmente reduz um pouco a velocidade e permite a entrada. Talvez tenha perdido dois ou três segundos, mas o sistema ganhou previsibilidade. Essa é uma forma diferente de compreender a gentileza no trânsito.


Gentileza não é apenas educação

Dar passagem, permitir uma mudança de faixa, respeitar o pedestre, manter distância segura, não acelerar quando alguém sinaliza uma conversão ou simplesmente não transformar cada espaço disponível em uma disputa são comportamentos normalmente associados à boa educação, mas seus efeitos vão além.

O trânsito é um sistema formado por milhares de decisões individuais que acontecem simultaneamente. Uma decisão interfere na seguinte e pode desencadear uma sequência de reações. Uma frenagem desnecessária pode provocar outras frenagens. Uma mudança brusca de faixa pode obrigar diversos motoristas a corrigirem velocidade e trajetória. Um condutor que bloqueia um cruzamento pode comprometer uma via transversal inteira.

Da mesma maneira, comportamentos cooperativos podem reduzir essas perturbações. Por isso, talvez devêssemos enxergar a gentileza também como uma espécie de lubrificante social do sistema viário: algo capaz de reduzir atritos entre os diferentes participantes do trânsito.


O paradoxo do trânsito

Existe um comportamento curioso nas ruas: muitas pessoas dirigem como se cada pequena concessão representasse uma perda.

Não deixam outro veículo entrar porque acreditam que perderão tempo. Aceleram diante de uma mudança de faixa, disputam posições, aproximam-se excessivamente do veículo da frente para impedir que alguém ocupe aquele espaço e, não raramente, avançam poucos metros apenas para parar novamente no mesmo semáforo.

Individualmente, pode parecer uma vantagem. Coletivamente, porém, o resultado pode ser exatamente o contrário. Quanto mais agressivas e imprevisíveis são as decisões, maior a necessidade de correções de velocidade e trajetória. O fluxo perde regularidade e passa a funcionar em sucessivas acelerações e desacelerações.

É a lógica do “eu preciso passar primeiro” produzindo um sistema no qual todos podem acabar avançando pior.


A pressa que quase não economiza tempo

Há ainda outro aspecto que merece reflexão: muitas das atitudes que adotamos para “ganhar tempo” proporcionam ganhos de poucos minutos e, frequentemente, de apenas alguns segundos.

Nas cidades, nosso deslocamento não acontece em velocidade constante. Existem semáforos, cruzamentos, faixas de pedestres, conversões, veículos entrando e saindo das vias, congestionamentos e inúmeras outras interferências que reduzem a velocidade média de uma viagem.

Um exemplo simples ajuda a entender. Imagine um percurso urbano de 5 quilômetros. Em uma situação puramente teórica, sem semáforos ou qualquer outra interrupção, percorrer essa distância mantendo 40 km/h levaria 7 minutos e 30 segundos. A 50 km/h, levaria 6 minutos. Mesmo aumentando a velocidade em 25%, a diferença seria de apenas 1 minuto e 30 segundos. Estamos falando de uma condição praticamente inexistente no trânsito urbano: manter velocidade constante durante todo o percurso.

Na prática, a vantagem pode ser ainda menor. O motorista que acelerou para ultrapassar, trocou sucessivamente de faixa ou arrancou rapidamente pode encontrar, poucos metros depois, o mesmo semáforo fechado que encontrará aquele que vinha atrás.

É uma cena conhecida: um veículo passa em velocidade, faz diversas mudanças de faixa, disputa espaços e, alguns minutos depois, está parado no mesmo semáforo, talvez dois ou três carros à frente. Então vale a pergunta: quanto tempo ele realmente ganhou?

Em muitos casos, segundos. E qual foi o preço desses segundos? Talvez uma ultrapassagem desnecessária, uma frenagem brusca, um conflito com outro motorista ou o aumento do risco de um sinistro.

O mesmo raciocínio vale para quem avança o sinal vermelho ou acelera diante do amarelo simplesmente para não esperar o próximo ciclo do semáforo. O ganho pode ser de algumas dezenas de segundos ou poucos minutos. O risco assumido, entretanto, pode ser incomparavelmente maior.

Parar sobre a faixa de pedestres é um exemplo ainda mais evidente. O motorista avança alguns metros para ficar mais próximo do cruzamento, mas continuará aguardando o mesmo sinal abrir. Não ganhou tempo algum. Em compensação, ocupou o espaço destinado à travessia e pode obrigar o pedestre a circular entre veículos.

É uma relação desproporcional: arrisca-se muito para ganhar muito pouco e, algumas vezes, não se ganha absolutamente nada.

Se uma viagem urbana dura 25 ou 30 minutos, será que realmente faz sentido transformar cada mudança de faixa em uma disputa para economizar alguns segundos? Vale impedir outro veículo de entrar apenas para permanecer uma posição à frente? Alguns metros justificam colocar um pedestre em risco?

A gentileza propõe a lógica inversa. Ceder espaço com segurança pode custar alguns segundos. Respeitar a faixa de pedestres não comprometerá significativamente uma viagem. Reduzir um pouco a velocidade para facilitar uma manobra corretamente sinalizada dificilmente será responsável por um atraso.

Talvez precisemos aprender uma conta muito simples: a pressa pode economizar segundos; a gentileza pode evitar conflitos, reduzir riscos e preservar vidas.


Gentileza também produz previsibilidade

Segurança no trânsito depende muito de previsibilidade. Quando um motorista utiliza a seta, mantém distância, respeita a preferência e age de maneira coerente com a sinalização, os demais conseguem antecipar melhor suas ações.

Gentileza, porém, não significa abrir mão das regras de circulação ou criar preferências onde elas não existem. Ser gentil não é ser imprevisível. Parar repentinamente onde não deveria para deixar alguém passar, por exemplo, pode produzir exatamente o efeito contrário e gerar risco.

A verdadeira gentileza precisa caminhar junto com o Código de Trânsito, com a sinalização e com a previsibilidade.


E se a cooperação se tornasse parte da cultura?

Investimos muito esforço tentando controlar comportamentos inadequados por meio da punição. Fiscalização e penalidades são indispensáveis, especialmente diante de condutas que colocam vidas em risco, mas um sistema viário não pode depender exclusivamente do medo da multa para funcionar bem.

Existe uma camada anterior: a cultura. Imagine uma cidade em que facilitar uma mudança de faixa fosse comportamento habitual. Em que utilizar a seta significasse realmente comunicar uma intenção, e não iniciar uma disputa. Em que manter distância fosse entendido como segurança, e não como um espaço que precisa imediatamente ser ocupado. Em que pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas se percebessem como participantes do mesmo sistema, e não como adversários disputando território.

Não eliminaríamos os congestionamentos, não resolveríamos os problemas de infraestrutura nem substituiríamos fiscalização, engenharia ou transporte público, mas poderíamos ter um trânsito menos hostil, mais previsível, cooperativo e seguro.


Duas piscadas podem dizer muita coisa

Pequenos códigos informais também podem ajudar a reforçar uma cultura de cooperação. Um deles é utilizar brevemente o pisca-alerta como forma de agradecimento depois que outro motorista facilita uma manobra.

O gesto dura poucos segundos, mas transmite uma mensagem simples: “Eu percebi o que você fez. Obrigado.” Pode parecer insignificante, mas comportamentos sociais também são construídos por reconhecimento. Quando uma atitude positiva é percebida e retribuída, reforçamos a ideia de que cooperar vale a pena.

Talvez duas piscadas, isoladamente, não sejam capazes de transformar o trânsito de uma cidade, mas milhares de pequenas decisões, repetidas diariamente, podem começar a mudar uma cultura.


O trânsito que temos é o comportamento que repetimos

É comum atribuirmos os problemas do trânsito ao poder público, à infraestrutura, à fiscalização ou às leis. Todos esses fatores são fundamentais, mas existe uma parte do sistema que começa antes de qualquer obra pública: nossas próprias decisões.

Quando aceleramos para impedir que alguém entre, disputamos alguns metros, utilizamos o celular ao dirigir, ignoramos uma faixa de pedestres ou transformamos uma situação simples em conflito, estamos ajudando a construir determinado tipo de trânsito.

O contrário também é verdadeiro. Cada espaço cedido com segurança, cada preferência respeitada, cada seta utilizada corretamente e cada gesto de agradecimento ajudam a construir outro padrão de convivência. Talvez a pergunta não seja quanto tempo perderíamos sendo mais gentis no trânsito. Talvez devêssemos perguntar:

Quanto tempo, segurança e qualidade de vida estamos perdendo por não sermos gentis?